Estamos agora em Picos, Piauí. Os últimos 3 dias têm sido muito corridos, com somente uma noite dormida em cada cidade. Temos passado, portanto, muito tempo na estrada.
Em Catingueira, pela manhã, ainda fomos visitar uma família encantadora que mora no sítio da família do Inho, no pé da Serra da Catingueira. De Catingueira partimos para oeste (levemente sudoeste) em direção a Juazeiro do Norte, uma das três cidades do trio do Cariri.
Juazeiro do Norte é um saco. No fundo me sinto um pouco preconceituoso de dizer isso, pelo fato de termos passado cerca de impressionantes 15 horas lá, 7 das quais foram de sono e 2 das quais foram de conserto do tanque de combustível. Pois é, a porra do tanque furou. Mas o fato é que é a cidade tem uns 300 mil habitantes (3x Patos, tipo Campina Grande) e já tem síndrome de cidade grande. A Rua São Pedro, centro comercial da cidade, é uma mistura de Casa Amarela com Bombaim. Em cada metro quadrado da avenida tem uma moto ou uma bicicleta.
À noite fomos beber uma Cajuína São Geraldo e uma cervejinha gostosa com uns tira-gostos exóticos (tipo arraia, vatapá e panelada (eeeeergh) ). A impressão era de que estávamos em Recife, com direito a medinho bizarro de ser assaltado e ter o carro arrombado. Lucas sentou numa mesa do bar (na verdade, da rua) em que tinha que se esquivar dos caminhões que vinham a 40 por hora. O que valeu a noite foram as histórias da dona da pousada em que ficamos, Dona Anita, senhora de idade cheia de causos para contar sobre o Padre Cícero e Lampião.
Pela manhã, fomos para o Horto, onde se encontra a estátua do venerado Padim Ciço. De fato, Juazeiro do Norte é praticamente um Padim Ciço gigante, com 5 miniaturas suas em cada lojinha ou boteco. Os arredores da Estátua grandona, que fica em cima de uma serrinha adjacente à cidade, são na verdade um tanto deprimentes, fartos de crianças habituadíssimas a pedir, pedir e pedir. Rola um ataque aos turistas e religiosos meio trash lá, já que milhares de pessoas vão lá todo ano pedir proteções e pagar promessas.
Saindo de Juazeiro do Norte, subimos a Chapada do Araripe – fascinante -, que tem uma Floresta Nacional lindíssima na sua subida. A chapada é realmente achatada no topo (o que pôde ser verificado por Filipe Navegador Calegario e seu GPS. Mas um negócio impressionante mesmo pra quem tá acostumado a regiões cheias de acidentes e irregularidades topológicas, e até mesmo pros que tão acostumados com planícies ao nível do mar. Gigante o negócio, com direito a uma estrada retíssima por mais de 100km.
Exú é num pé de serra danado de bonito, logo descendo a Chapada. Aí vem a parte quentche da viagem, rapaz. E num é que esse bando de forasteiro metido a besta oriundo de um lugar tão distante e cheio de uns hábitos tão de cidade grande foram inventar de tocar Asa Branca diante do túmulo do Rei do Baião? O negócio foi forte, acho que Luiz Gonzaga gostou e mandou uma energia muito louca pra gente lá em cima, que deixou todo mundo tremendo na base. Ah! e Lipinho se cagando com medo de errar diante do mestre foi impagável.
Exú é muito bonitinha, mas mais bonitinho ainda foi a recepção que nos deram lá. A empregada da casa de Lipinho tinha lhe pedido que buscasse lá um tal de “uma coisinha” com a sua prima, mas a gente não tinha a mínima noção de como encontrá-la. De repente chega a moça na janela do carro, enquanto a gente tava fazendo uma pesquisa rápida nas pousadas da cidade: “Você que é Filipe?”. Aí pronto, era a tal da moça e a gente começou a prosear com ela. Quando ela, a nossa agora querida Lana, soube que a gente ia ficar numa pousada, indignou-se e insistiu pra que ficássemos na casa dela, até que a gente teve que aceitar. né?! \o/ Era ela, o marido super tranquilo e os três filhos gente boa: Marquinhos, o maior contador de piadas do Exú; Tiaguinho, o Lucas Cardim do Sertão (pirador do mulherio); e Bruno, o mais velho. De noite, filminho e churrasquinho na frente da fogueira, a céu aberto, com vista pra uma ligeira silhueta da Chapada do Araripe. Na hora de dormir, cinco colchões onde só cabia quatro, mas foi massa. Levar a tal “coisinha” pra Recife será um décimo da retribuição que deveríamos dar àquela hospitalidade – a cinco, lembro, e não um ou dois, visitantes.
Agradecidos, partimos pra cá – Picos -, via Chapada do Araripe mais uma vez, com direito a uma neblina arretada. Passamos, no caminho, por uma carvoaria bem interessante à beira da estrada e também por Araripina – pólo gesseiro de Pernambuco. Em seguida, mais uma divisa atravessada, mais um estado visitado e, de repente, uma casa de farinha em pleno funcionamento à beira da estrada pedindo pra ser visitada, fotografada e filmada. Depois, Picos, uma cidade do porte de Patos (graande) só que bem menos organizada, também com um centro da cidade confuso e tumultuado. Dizem que é a cidade mais quente do Brasil; vamos descobrir amanhã pela manhã se é verdade
Paisagens talvez menos paradisíacas do que a do Açude do Cego em Catingueira ou do que as vistas fascinantes do Vale do Catimbau, mas certamente enriquecedoras na mesma medida. Conhecer um matadouro, uma casa de família, uma noite de exuenses ou uma casa de farinha nos deixa tão satisfeitos quanto conhecer um Parque Nacional ou as Cataratas do Nicarágua. Afinal, nosso lema é ROOOOOOOOTS!

Juazeiro


Fole de Luiz Gonzaga. É o fraco!

Contadores de causos

Lana, seu Edivan e os meninos

Mausoléu de Luiz Gonzaga

Forno de Carvão

Joelma e Chimbinha
