De alma

By lucascardim

O último dia em Picos foi bem melhor do que esperávamos. A cidade é quente e seca feito uma sauna dentro de um fusca fechado com uma fogueira de São João do lado (fomos na época fria, vale ressaltar). E tudo piorava pois tínhamos passado uma noite de Beto Carreiro (chicotinho pra tudo o que é lado) . Pois bem, por que foi melhor? Porque fomos pra feira. Aí é lugar moral demais pra se conhecer gente. Meio mundo de gente e mundo e meio de farinha de mandioca, doce de buriti, doce de leite, rapadura, bolo barra branca, jaca em compota, batata doce e batata alienígena, mel com favo, queijo coalho, queijo manteiga e um bando de tempero colorido e cheiroso e saco de semente que a gente ficava metendo a mão e cheirando pro desespero dos feirantes gente boa. Aí lá compramos na banca de Biu uma barra de rapadura que ele quebrou pra gente ir comendo feito biscoito, um talho de queijo manteiga que a gente se esqueceu de comer e virou massa encefálica branca podre e mel mais banana. Era o nosso almoço até a Serra da Capivara junto com Cajuína São Geraldo que só não é o melhor refrigerante de todos os tempos junto com o Jesus do Maranhão (rosa, o líquido, não o Jesus) porque a Coca Cola faz artimanha contra e não deixa eles venderem muito. Antes de falarmos da Serra da Capivara vale – mais que tudo – falar de mais uma pessoa que conhecemos nessa viagem. Dona Maria, cega cantora da feira. Quando a vi, a preocupação foi em conhecê-la sem explorar sua condição ou fazer perguntas irrisórias. Mas também gostaria de saber quem era ela, e aí busquei fazer o que creio que todo mundo deveria fazer. Sentei e conversei bem direitinho. Me apresentei e conversamos. Gravei algumas perguntas, algumas imagens e pudemos saber mais sobre a vida de quem perdeu a visão com três anos mas além de cega era dona Maria. Sacaram? Existe uma diferença no foco e no conteúdo.
Indo pra Serra da Capivara foi coisa linda de Deus. Trilhas fuderosíssimas com paisagens que ficar falando não adianta (melhor vocês comprarem o livro que já soma 358 páginas). Resumindo, é como se você pegasse aquelas imagens que sempre vê em programas “discovery” multiplicasse por um número alto e colocasse de verdade na sua vida, com você lá, sentido o cansaço de ter chegado sob o sol, pedras, espinhos, brigas, choros, abraços, quedas, cortes e brenhas, colocando quatro amigos fuderosíssimos juntos. A paisagem é complemento, não ponto final. E lá no alto, no último dia dessas caminhadas pelo Piauí, depois de 1600 km de cidades, paisagens e de todos os nossos corações e almas que se modificaram através de incontáveis pessoas e aprendizados, enterramos, cada um, uma carta. Elas serão abertas daqui a 20 anos, quando refizermos a viagem, ou diante do falecimento de um de nós (que não acontecerá). Nela, colocamos expectativas para o futuro, filhos, família, mundo, impressões da viagem e de nossas vidas atuais, como somos e talvez como gostaríamos de nos encontrar no futuro. E que ele seja tão ou mais feliz como foi o presente dessa viagem.

De Alma

De Alma

3 Respostas para “De alma”

  1. Marcela Disse:

    que lindo! =~~
    (o texto, a ação e a paisagem)

    boa viagem de volta

  2. Hellyda Disse:

    Queijo coalho? eu quero!
    a tua descricao da feira lembrou minha infancia em petrocity, a gente morava na frente da feira da areia branca e tinha tudo isso e eu pirralha boazinha que era, saia pulando de banca em banca nos fds!

    saudade danada.

    =*

  3. wallace Disse:

    Meio trash essa história das caixas aí, hein Lucas? De que filme é isso mesmo? =P

    Tou sacando aí as postagens, bem legal. Ainda bem que você não entraram numa de postar no espírito “é cachaça mo vei”, “neguinhio aqui caído depois de tomar todas, hehehe”… E pelo visto como as mães e boyzas tão lendo, parece vocês resolveram deixar o negócio mais açucarado. =P

    Bem legal mesmo o tour pelo nordeste, de vocês. Boas historinhas pra contar. =)

    ps. Eu vou embora amanhã, mas ainda recomendo as cachoeiras daqui do sul do Maranhão. Saquem as cidades vizinhas Riachão (do Maranhão) e Carolina (Cachoeiras do Cocal, Itapecuru, Pedra Caída, Três Marias e Macapá).

    Altamente recomendado.

    Umas fotos aí:

    http://www.achetudoeregiao.com.br/MA/MA.GIF/Balsas/tres_marias.jpg

    http://www.imperialhotel-balsas.com.br/fotos/turismo/cocal.jpg

    http://www.achetudoeregiao.com.br/MA/MA.GIF/Balsas/cocal.jpg

    http://www.amazoniamaranhense.com.br/images/virtualtour/CachoeiraemRiachao-b.jpg

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